Uma das coisas que marcou muito a minha estada em São Paulo, por conta da pesquisa do meu doutorado sobre Mário de Andrade, entre as inúmeras idas à Unicamp, em Campinas e à biblioteca da USP, na capital, foi a história de Aldo Chioratto.
A revolução de 32 deixou nomes na história como acrônimo MMDC, iniciais de Martins, Miragaia, Drausio e Camargo, mortos pelas tropas federais getulistas na noite de 23 de maio de 1932 e que acendeu o moral dos paulistas como uma das razões da revolução.
Há todavia, um outro nome, além dos outros que tombaram do lado dos paulistas. Na manhã do dia 18 de setembro de 1932, estilhaços – 13 ao todo – atingem o menino Aldo Chiratto que não abandona seu bornal de mensageiro.
Ele estava entregando correspondência em uma residência próxima à estação da estrada de ferro no centro da cidade (onde é hoje a Av. Campos Sales). “Foram 13 estilhaços... 13 são as listas da bandeira de São Paulo”, costumam dizer os historiadores.
Não vou fazer uma análise histórica sobre quem tinha razão no acontecimento que marcou profundamente a alma paulistana, afinal São Paulo, apenas a capital era a cidade que mais crescia no mundo àquela época e se destacava no cenário econômico e político.
Vou apenas refletir a memória do menino Chioratto e deixar que também reflitam sobre como o nosso país vive entre o potencial de crescimento e as intimidações das elites que visam acomodar seus objetivos.
São Paulo acabava de liderar o retumbante movimento da Semana de Arte Moderna que revelaria ao mundo a metrópole engajada ao novo cenário dos marchands definindo o comércio e o rumo das artes.
Assim era também uma São Paulo no cenário, repito, econômico e político.
Se 1930 foi o freio getulista no modelo paulistano de alternância no poder, 1932 foi um baque definitivo no estado de São Paulo como estado-potência.
Foi o cerco getulista com 100 mil homens contra 30 mil constitucinalistas, deixando 2.200 mortos no cômputo geral dessa guerra civil brasileira.
Lembrando que era o cerco de um golpe cívico-militar, que depôs o presidente da época, o "paulista de Macaé (RJ)", Washington Luis.
O golpe de 1930 se mostrou poderoso - acuando os paulistanos constitucionalistas.
E sempre quando vejo a data 9 de julho parece que vejo a cena do pesado avião vermelho que Getúlio Vargas acionara para assim bombardear o núcleo estratégico da revolta, bem no coração de Campinas.
Os restos mortais de Aldo repousam hoje no Mausoléu Constitucionalista, Ibirapuera, São Paulo - ali naquele obelisco de 72 metros de altura, o maior e o mais famosos do Brasil, onde se leem os versos de Guilherme de Almeida: “Viveram pouco para morrer bem/ morreram jovens para viver sempre”.
Hoje é o feriado mais paulistano em todo o Estado de São Paulo, dia de lembrar, por exemplo, do ato heróico do pequeno Aldo Chiaratto, que mesmo ferido e agonizando não deixou de cumprir a sua missão, tornando-se referência na história do Escotismo brasileiro, pautado em valores como disciplina, companheirismo, disciplina, altruísmo e lealdade.
Benilton Cruz

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