À ponta do poema está a letra, a caneta, o teu nome esparso, cheio de curvas e entrelinhas. À ponta do poema está a memória derramada entre o copo e a taça, o rubro vinho que me demora o fado, o grão-pará recordo e a lusa história. À ponta do poema lanço o dado de Mallarmé e a sorte que não pode abolir o azar. À ponta do poema qualquer reinício bárbaro entre a vida e a morte: o beijo na morna xícara ou o último lúme do cigarro. À ponta do poema a lua que na janela jaz fria e luminosa como um mármore do meu e teu antepassados. À ponta do poema o rio que atravesso, o Mondego, como uma avenida abraçando águas e gentes. À ponta do poema as folhas espalhadas pela tarde entre Aveiro, Matosinhos, Porto, Coimbra, Lisboa, Belém e um bairro do Marco. À ponta do poema o último laço da palavra que aprisiona e liberta a alada e casta, escorpiniana, sagitariana, virginiana e andarilha casa. Benilton L. Cruz, para a Lygia.
A ORAÇÃO DO SAMURAI Eu não tenho pais, faço do céu e da terra os meus pais. Eu não tenho casa, faço do mundo a minha casa. Eu não tenho poder divino, faço da honestidade o meu poder divino. Eu não tenho meios, faço da disciplina a minha pretensão. Eu não tenho poderes mágicos, faço da personalidade o meu poder mágico. Eu não tenho vida ou morte, faço das duas uma, tenho vida e tenho morte. Eu não tenho visão, faço da luz do trovão a minha visão. Eu não tenho audição, faço da sensibilidade os meus ouvidos. Eu não tenho língua, faço da prontidão a minha língua. Eu não tenho leis, faço da auto-defesa a minha lei. Eu não tenho estratégia, faço do direito de matar e do direito de salvar vidas a minha estratégia. Eu não tenho projetos, faço do apego às oportunidades os meus projetos. Eu não tenho princípios, faço da adaptação a todas as circunstâncias o meu princípio. Eu não tenho tácticas, faço da escassez e da abundância a minha táctica. Eu não tenho talentos, faço da imaginação o me...