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"MORRE JOVEM O QUE OS DEUSES AMAM"

 "MORRE JOVEM O QUE OS DEUSES AMAM"


A morte prematura do poeta Mário de Sá-Carneiro inspirou Fernando Pessoa a escrever um dos mais belos texto sobre a sensação de perder um ente querido em plena juventude. Meu irmão caçula, o mais belo e o mais frágil, de nossos irmãos também nos deixou em plena juventude. 

Todo segundo dia de cada mês o coração não deixa esquecer seus olhos de um céu sereno (como se ele apenas estivesse viajando e ainda fosse possível retornar para casa). 

Todo segundo dia de cada mês recordamos que ele está muito presente: seja na fila da padaria, seja na rua, quando nos deparamos com alguém muito parecido com ele, seja em nossa recordação do dia a dia. 

Meu pequeno irmão, nunca esqueceremos de você. Como eu gostaria de lhe dizer pessoalmente: volte logo dessa viagem e me dê um abraço. Como eu gostaria de terminar aquela partida de xadrez, aquela que você levava pequena (e crucial) vantagem. Como eu gostaria de lhe recitar, pessoalmente, aquele poema "Levanta-te soldado, foi apenas um tiro, e passou de raspão..."


Abaixo, passagens do texto de Fernando Pessoa.


MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

        (1890-1916)

                Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!

                                CAT .

Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.

[...]


Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo em que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, [...]


Textos de Crítica e de Intervenção . Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980.  - 149.




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