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A ONÇA E A LIBERDADE

 


A ONÇA E A LIBERDADE

 

Por Benilton Cruz

 

Foi notícia recente o avistamento de uma onça-pintada em torno da área nativa infelizmente destruída em decorrência da construção da Av. Liberdade, a que liga o bairro da Terra Firme à Alça Viária, em Belém.

 

E, diga-se de passagem, era uma espécie de “mata atlântica paraense” preservada próxima à UFRA, UFPA, Parque Tecnológico e do Campo de pesquisa do Museu Goeldi, área essa que em tempo relativamente recorde se deu a pavimentação da avenida que haveria de desafogar boa parte do trânsito da capital.

 

Nada contra, pelo contrário, precisamos de novas “liberdades”, novas “independências”, novas “centenários”, novas “marinhas”, para desafogar a metropolitana capital que, no movimento natural de crescimento horizontal, vai engolindo cidades próximas, no geográfico efeito metropolitano chamado de conurbação.

 

Precisamos sim de novas vias e de tecnologias de pavimentação que se adequem à realidade amazônica, em especial à pluviométrica Belém do Pará sob o cíclico inverno amazônico.

 

Precisamos de novas vias que respeite a riqueza amazônica, iguais aquelas que vemos no Canadá, na Noruega, nos Estados Unidos, e em tantos outros países que realmente inovaram e aplicam uma política de sustentabilidade em total respeito à fauna e à flora.

 

Quem conhece essa área sabe que não é qualquer pavimentação que vai se sustentar sobre o extenso mangue que margeia o caudaloso (e choroso) rio Guamá, que segundo a etimologia, significa “o rio que chora” justamente por seu lento deslizar e marulhar discreto quase imperceptível.

 

O inverno amazônico vai pôr (literalmente) à prova a qualidade da pavimentada e até agora elogiada Av. Liberdade, mesmo que muitos que já passam por lá a viram como uma “avenida-fantasma”.

 

No caso, o epíteto se refere ao isolamento quase que sepulcral da longa avenida que soterrou o pantanoso mangue e levou consigo a alma da milenar flora e fauna do lugar, cujo efeito se vê agora com a migração forçada desses animais às proximidades, como é caso de inúmeros relatos na UFRA, tanto dos alunos, como servidores e vigilantes que veem jacarés, cobras, lagartos, macacos, todo tipo de aves e a temida onça-pintada.

 

Não foi só o portentoso felino que ficou à deriva em seu próprio lar, foram centenas, quiçá milhares de animais, de pequeno a médio porte, atordoados com a repentina invasão das máquinas e seus “r-r-r-r-r-r-r-r-r-r” insones como haveria de eternizar Fernando Pessoa em sua Ode Triunfal, ao colocar, com ironia e ciência dos paradoxos, no circuito literário a máquina e a energia, as duas novas deusas Minervas da modernidade.

 

Foram comunidades centenárias atingidas em cheio, forçando núcleos familiares a se sentirem humilhados dentro do seu próprio território, enlameados pelo aterramento, isolados pela falta de projeto de integração com a “Cop-avenida”. Comunidades inteiras que deveriam ter apoio e respeito foram as primeiras a serem atingidas.

 

A onça-pintada, dentro da tradição da pajelança ou do etnoxamanismo, traz a certeza, é um animal que nos ensina a objetividade, a paciência, transforma o medo em ação, - é o senhor do mato – literalmente “jaguaretê”, caçadora, escaladora, nadadora, protetora (afinal ela também tem filhotes).

 

É a bela senhora que têm olhos verdes para a mata e amarelos para a areia - e um estrondoso esturro que alcança quilômetros, a delimitar um território visual e sonoro.

 

Seu avistamento traz a certeza do quanto que a nossa urbanização precisa comungar da mesma linguagem da natureza, afinal a natureza é a fonte, a energia que nos renova e nos habilita a viver no mesmo habitat.

 

Que exemplo é esse em plena Amazônia de uma obra que não respeita o tão decantado meio ambiente?

 

 

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