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O ORFEU DE PAULO PLÍNIO ABREU

 




O poeta Paulo Plínio Abreu revive, em boa parte de seus elegíacos poemas, a nostalgia da unidade: “E eu quis pousar em seu ombro”, “mas algo havia no seu ser/ que me aterrou”. Basta apenas este dois versos para encetar o terror da dispersão, de uma visão contrária a poderosa função agregadora do poeta-cantor da Trácia, o hermético Orfeu - isso tudo que é uma característica do autor do livro Poesia, duas vezes editado e publicado pela Editora da Universidade Federal do Pará, onde o poeta foi um dos primeiros professores do então Curso de Letras Clássicas.

A poesia de Paulo Plínio Abreu fala que não navegamos mais animicamente na bela e ao mesmo tempo indecifrável cor azul dos mares do Mediterrâneo. O poeta dos argonautas tinha “olhos azuis” e sempre acompanhado de uma ave que surgia das árvores e pousava “no ombro de Orfeu quando ele retomou suas andanças, e não o deixou mais” (BAUMANN, 1990, p. 09).

 

Para o poeta paraense, esse pássaro “que não pertence a nenhuma fauna” (“Viagem ao sobrenatural”) é imagem recorrente de uma aterradora natureza que acompanha os poetas. A simbologia da pomba do mato dizia do canto e da voz, dentro daquela virtude de unir, a “virtude centrípeta” (DETIENNE, 1991, p. 87), quando a voz reúne todas as criaturas da terra, do céu e o mar, união plena com a Natureza.


 

O certo é que Orfeu, por essa força aglutinadora, foi fundamental aos argonautas no objetivo de encontrar o Velocino de Ouro, afinal como já dizia os antigos “[...] pela poesia os deuses celestiais são aplacados” (HORÁCIO, 2012, p. 71).

 

Assim, o poeta, sob a aura dos clássicos da Antiguidade, era aquele que reunia e pacificava, era quem atraía para si as criaturas, os animais, que podem ouvir e cantar, sob as mais variadas formas.

 

E modernamente falando, agora recolhe os fragmentos, aquele que ainda luta por unir um mundo despedaçado, novamente algo lembrando a epígrafe de Rilke de 1958.

 

Todavia, o Orfeu pliniano é “emigrante” entre reinos distantes, revive a mais longa viagem, aquela que deixa no corpo as marcas da perda e das selvagens travessias, e se encontra sozinho, mesmo ao triunfar no Hades das jornadas. É o ser cantante das águas letais, o poeta da última glória, não a de ter amolecido o coração do deus dos mortos, mas a de ser o único a lembrar que lá todas as pessoas esquecem seus nomes. O poeta é quem possui memória no inferno.

 

No mito, o estranho pássaro aparece novamente, ou como a pomba do mato, ou como rouxinol, em sua última morada, quando as musas o enterram em Limetra.

 

Diz a lenda que o rouxinol cantou diferente desde então.

 

 

 

O NÁUFRAGO TRAZIA UM PÁSSARO NO OMBRO

 

Sei que trazia um pássaro no ombro.

De um reino vinha carregado de sonhos

Na mão trazia as marcas da viagem

Ainda giravam em torno do seu corpo

os ventos do mar.

No olhar o horizonte carregado de bruma,

no ouvido o pio das gaivotas.

Trazia o mar no corpo,

as medusas do mar.

No peito trazia marcada em tatuagem

a palavra amor.

Vinha do mar e trazia um pássaro no ombro.

 

 

O poema fala de um náufrago cujo mar é o “útero” da terra. É a simbologia mais vasta da Criação, o mar e sua vastidão, úmida, salgada, abissal. Não há a jornada mais longa, representada na busca pelo Tosão de Ouro à remota Cólquida, nessa viagem que agora não tem sentido algum. O poeta é o retrato da solidão e o canto é reduzido a um pio de gaivota. Ele não acalma os rochedos que esmagam as naus invasoras como diz a lenda. É apenas um que retorna do mar.

 

A função libertadora de Orfeu, a que “duplica” o sentido de mito, uma vez que o mito seria como uma “palavra cantada”, canto que se renova ao ser invocado, reduz-se, todavia, em Paulo Plinio Abreu a uma revelação de impotência.

 

Se no mito a voz, a canção e o corpo são as “armas” diante do destino das longas travessias, a poesia pliniana segue a renúncia órfica de armas de ferro, dos reinos e das realezas e assume de vez que nada resta além de uma tatuagem, uma marca, um amor, uma travessia.



                         (Mais no meu livro Moços & Poetas) 



 


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