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EPITÁFIO E POESIA

O texto a seguir não é um apanhado de epitáfios de escritores famosos e sim algo que poderia ser o contrário: frases que foram escritas como vaticínios de como morreriam esses homens ilustres das letras.


Epitáfios são aquelas lápides, na vertical ou na horizontal, com aqueles dizeres que podem ser as últimas palavras do homenageado ali sepultado. Por sua vez, vaticínio é uma palavra que traz em sua origem um dos nomes antigos para os poetas: o vate, que na tradição latina tinha o poder de anunciar o futuro, daí vaticinar ser sinônimo de prever.


António Vieira em um de seus sermões dizia que quando lhe era perguntado quem era António Vieira, respondia laconicamente: "sou pó e ao pó retornarei", e enfaticamente completava: "para nascer, Portugal; para morrer, o mundo" - o maior orador do século 17, que nasceria em Lisboa em 1608, morreria em Salvador, Bahia, em 1697;  


Epicuro, em sua Carta a Meneceu, escrevia que não devemos nos precupar com a morte, pois quando ela vier, já não mais estaremos aqui; talvez seja o alento mais confortável sobre a nossa precupação com a chegada da "mais indesejável das gentes", do verso de Manuel Bandeira que tuberculoso praticamente a vida inteira morria com mais de 80 anos...


Bocage finalizava um de seus impecáveis soneto com um verso lapidar "saiba morrer o que viver não soube";


Camões, que viveu em três continentes, cantou o apogeu das Navegações e o declínio em Alcácer - Quibir, após atravessar o Século de Ouro, o nunca mais se repetiria a Portugal,  o longo século XVI, dizia que levaria consigo a pátria  para o túmulo, o que realmente aconteceu: em 1580, Castela anexava Portugal em dois reinos, a tal de "União Ibérica"; 


John Keats no auge de sua mocidade e Romantismo deixaria à posteridade em sua lousa tumular: "jaz aqui aquele que escreveu sobre a água"; 


E no sonho romântico de morrer no mar, há um trecho de uma carta de um poeta brasileiro famoso que dizia "em princípios de outubro devo lá estar, se não ficar no mar"...era simplesmente Gonçalves Dias, náufrago fatal aos 41 anos, sob uma noturna tempestade, perto já de sua terra onde canta o sabiá (Gonçalves Dias não morreu no mar, ele ficou no mar).


O poeta está sempre de volta ao seu lar.


Borges, em um poema sobre a morte, já cego e ditando seus versos à Maria Kodama dizia "Breve saberei quem sou";


Tavernard, o mais moço dos poetas paraense, previu a sua morte "no colo maternal", sorrindo, mesmo sofrendo de hanseaníase, (o poeta viria realmente a morrer no colo da mãe que o amparava de um ataque cardíaco que o vitimara à roda dos 27 anos); 


Mário Faustino escreveu em um poema o verso "a morte espacial que me ilumina", vaticinando o acidente aéreo que o vitimou aos 32 anos, em Lima no Peru, quando o avião no qual viajava se chocou como o morro "Cerro de las Cruces";


Fernando Pessoa, no seu místico, lírico e épico "Mensagem",  dizia "Não sei a hora/ mas sei que há a hora" e morreria despois de escrever na língua de sua infância vivida em Durban, África do Sul, "I know not what tomorrow will bring"...


(para mim, todo poeta escreve o seu próprio epitáfio, são criadores de suas demiurgias e até de seus próprios destinos, fados envoltos sempre sob a aura do mistério e da não menos enigmática poesia)


- e o mais citado verso para aproveitar a vida é o famoso "Carpe Diem", eternizado por Horacio, poeta das odes latinas, poemas curtos, carregados de espiritualidade, metafísica e uma estranha resignação.


Recordemos nossos imortais que repousam em nossso Panteão da Imortalidade com as melhores lembranças, flores e poesia.


Benilton Cruz (Academia Paraense de Letras, Academia Maçônica de Letras do Estado do Pará, professor da UFRA).



Panteão da Imortalidade da Academia Paraense de Letras, cemitério de Santa Isabel, Belém PA, foto : Bruno Malheiros.


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