Em 2017, iniciei uma pesquisa sobre o que eu chamei de a Amazônia: Etnopoesia, a poesia oral e cantada dos povos indígenas, seus pajés e índios-muras (os que vivem isolados das suas comunidades), os pontos da matriz africana, os “íkaros”, do idioma shipibo-konibo, espécie de cantos mágicos da Amazônia andina, do ritual de energização e cura das tradições peruanas, cantos estes que chegaram a nós através da ritualística do Daime, bebida sagrada, hoje encontrada em centros religiosos às proximidades de Belém, Pará.
Os “Íkaros”, os pontos, os hinos e as
rezas-cantadas dos índios-muras só se aprendem em uma sessão religiosa, na
solidão do espírito evoluído de quem os recebe sob o efeito de aromas
especiais, de bebidas enteógenas como a Ayahuasca (chá feito da folha da
chacrona e do cipó mariri), de algum tipo de tabaco, de ervas medicinais, do contato
com a sananga, o chamado “colírio da floresta”.
Receber é uma forma de compor, e o que vai de uma simples reza a uma sinfonia pode ser um ato de entrega àquilo que dizia Eliphas Levy que religião é magia consentida por uma autoridade.
Não vou me alongar aqui, mas são muitas
as inspirações em diálogo com o divino: os pontos, os hinos religiosos do
variado panteão de divindades da nossa Hiléia espiritual, a que se alimenta de
caboclos, orixás, índios, além dos da tradição do monoteísmo judaico-cristão, a
versão popular de Jesus Cristo e dos santos católicos – toda uma inspiração sob
uma sensação que lembra a do poeta-possesso, pela primeira vez aventada por
Platão, no Íon.
Abaixo, alguns deles, compostos (recebidos) por
mim, selecionados para o IV livro da Malta de Poetas. Mais detalhes, é possível
de ser encontrado no blog Amazônia: Etnopoesia.
ÍKARO DO SANTO CASAL
Curem-se com a luz
deste canto
Curem-se com a fé
deste canto
Curem-se com a força
deste canto
Curem-se com o amor
deste canto
- Madre Ayahuasca é quem está falando!
A chacrona é quem
está falando!
A rainha é quem está
falando!
Curem-se com a luz
deste canto
Curem-se com a fé
deste canto
Curem-se com a força
deste canto
Curem-se com o amor
deste canto
- Tihuaco é quem
está falando
O mariri é quem está
falando
O marechal é quem
está falando
- O santo casal é
quem está falando!
- O santo casal é
quem está falando!
UMA ROSA PARA
IEMANJÁ
À Rosângela Aguiar
Eu vim trazer uma
rosa pra Iemanjá,
Odoiá, O-odoiá!
Essa rosa é meu
coração,
Vou deixar essa rosa
pra Iemanjá.
Cada onda que vem
meus pés molhar
É carinho da mãe
Iemanjá.
Ela vem do azul com
o luar
Seu vestido cobre
todo o mar.
Odoiá Odoiá, leva
meu coração
Que se acalma com o
mar.
Acalanta com espumas
os meus sonhos, ó Mãe!
Acalanta, senhora
Odoiá!
Me acolhe nos seus
braços, ó mãe!
Minha mãe que vem me
acalmar!
Odoiá Odoiá Odoiá
O-Odoiá!
Essa rosa é meu
coração
Vou deixar essa rosa
pra Iemanjá!
ABRE O CAMINHO, OGUM
Abre o caminho, Ogum
Abre o caminho, meu
pai
Abre o caminho, Ogum
Abre o caminho, meu
pai!
Ogum, Onirê
Ogum, Alakarô
Senhor da Guerra,
Ogum
Senhor do Ferro,
Ogum
O primeiro a vir à
Terra, Ogum
E na Terra não pode
morrer!
Civilizador, Ogum
Forjador, Ogum
Sete instrumentos,
Ogum
Vencer a Natureza,
Ogum
Senhor das Estradas,
Ogum
Orixá Ferreiro, Ogum
Vencedor das
Demandas, Ogum
E quem vem à frente
é Ogum!
E quem vem à frente
é Ogum
E quem vem à frente
é Ogum
E quem vem à frente
é Ogum
PONTO DE OXOSSI
Akê arô, akê arô, Oxossi
Akê arô, akê arô, Oxossi
Senhor da Mata, de
uma flecha só
Da solitária flecha
do Amor
Oxossi é caçador,
Oxossi é provedor!
Akê, Akê, akê arô!
Akê, akê, arô!
Akê, akê, akê, arô!
Ogum é irmão e
professor
Ogum é guerreiro
e
Oxossi é caçador
Da solitária flecha
do Amor
Da solitária arte de
caçar
No meio da roda
Baila linda rainha
É Oxum e a seu lado
O belo caçador
Filho de Iemanjá
E irmão de Ogum
Ogum é do campo
Oxossi é das Matas
E farta é a casa de
Iemanjá!
Akê, akê,
akê arô!
Akê, akê arô!
Akê, akê,
akê arô!
Akê, akê,
akê arô!
Akê, akê, akê arô!
Akê, Akê, Akê arô!
DONA DAS DIREÇÕES
Êparrey, Iansã,
Êparrey, Yo-yá!
Êparrey, Iansã,
Êparrey, Yo-yá!
Senhora dos Raios,
Senhora
da Luz
Venho pedir o seu
Amor!
Êparrey, Iansã,
Êparrey, Yo-yá!
Êparrey, Iansã,
Êparrey, Yo-yá!
Senhora dos Ventos,
Senhora da Luz
Venho pedir o seu
Amor
Na tempestade eu a
vejo dançar
Deixa o seu rosto
ver
E enxergar,
enxergar!
Enxergar o seu Amor!
Mãe do Entardecer
Ouça este meu cantar
Que é de Amor,
Deixa o seu rosto
ver!
Na tempestade eu a
vejo dançar
Deixa o seu rosto
ver
E enxergar,
enxergar!
Enxergar o seu Amor!
Dona das Direções
Eu lhe saúdo com
Amor
E no entardecer
Com a Justiça de Xangô!
Eu lhe saúdo entre
trovões
E as rosas, rosas,
rosas!
A MENSAGEM DE OXALÁ
Eu canto a mensagem
de Oxalá
A paz, o Amor de
Oxalá!
Eu levo a mensagem
de Oxalá
Eu deixo a mensagem
que é de Amor.
Eu rezo a mensagem
de Oxalá
Eu canto a mensagem
de Oxalá.
Eu espalho a
mensagem de Oxalá
Eu deixo essa voz
que é de Amor.
Ele vem de branco
iluminar
Ele vem com seu
cetro abençoar
Ele diz que o Amor é
o bem maior
Ele diz que a Paz é
o bem maior!
Para a Lygia Cruz
Cochee, Cochee
É o cavalinho
Que vai à frente,
Levando você!
Cochee, Cochee
Vermelinho,
Pontente carrinho,
Levando você!
Decifrador dos
sonhos,
Cavalo-menino,
Brincalhão e
trabalhador,
Levando você!
Cochee, Cochee
É o cavalinho
Livre e poderoso
Senhor do Amor!
CANÇÃO DE OBALUAÊ
Hoje, estou coberto
com as palhas de Obaluaê!
Senhor do Perdão,
Ancião da Cura, Mestre do Tempo
E dos Ciclos do
Viver.
Suas chagas foram
curadas pelas águas salgadas
Do mar de Iemanjá!
(A grande mãe nos
ensina a verdade do que é amar)
Venha Obaluaê, venha
nos curar
Venha devagar,
devagar
Devagar
Suas pernas cansadas
Da Ancianidade
sagrada
Podem demorar!
Mas, sua cura não
vai falhar
Venha, Obaluaê,
venho nos curar,
Venha devagar,
devagar,
Devagar
- Venha e nos traga
a esperança
Venha e nos traga a
lembrança
Da África-Mãe, sua
dor, sua luta
Sua pujança!
- Hoje, estou
coberto com as palhas de Obaluaê!
SANANGA[1]
Vamos todos entender
que o amor veio para vencer
E tudo o que temos
dentro de nós
É amor para dar e
retribuir.
Tudo o que está no
céu e na terra
São irmãos do mesmo
laço fraternal.
Agora vamos todos
enxergar
Porque precisamos
ver:
Sananga! Sananga!
Sananga!
Tudo está diante de
nossos olhos
Só não enxerga quem
não quer ver!
E para isso vamos
chamar a nossa irmã
Que veio da raiz –
Ela diz que a terra é quem ensina!
Ela diz que é a luz
que nos cura!
E não existe nem
sombra e nem as trevas
Que podem obstar
Sananga! Sananga!
Sananga!
Venho para te fazer
enxergar
Com essa estranha
forma de Amargo-Ardor
E cada olho vai se
desdobrar no verdadeiro olhar
Que é o Amor
Sananga! Sananga!
Sananga!
- Desperta meu
olhar!
A LUZ DA ÁGUA É MÃE
OXUM
A luz que vem da
água quem nos dá é Mãe Oxum
A alegria que vem da
água quem nos dá é Mãe Oxum
A fartura que vem da
água quem nos dá é Mãe Oxum
Ara rê a ô, Ara rê a
ô Oxum
Ara rê a ô, Ara rê a
ô Oxum
Bela Mãe do Amor,
Bela Mãe da Vida
Lava-me do mal,
lava-me das dores
E me doure com o
ouro de sua armadura!
[1]
Colírio extraído de um arbusto e de
sua raiz, a Tabernaemontana Sananho, encontrada em dez espécies diferentes, comuns no Acre, Mato Grosso, e até a
Austrália. Entre os kaxinauás é conhecida como o “colírio da floresta
amazônica”. Com duas gotas em cada olho, provoca ardor e mirações, aguça a
visão à caça e cura diversos males da córnea. A sananga carrega o espírito da
floresta, o Shanovo ou Shavovô, e leva a luz à nossa cegueira espiritual.

Comentários
Postar um comentário