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ORFEU – RILKE – PAULO PLÍNIO ABREU

 


Para Orfeu, cantar é existir, “Gesang ist dasein” como diz um dos sonetos de Rilke dedicado ao mítico poeta da Trácia que cantava junto às árvores como os pássaros e ali cercado da natureza haveria de inventar algo fascinante até então para a arte do canto, algo de sua primeira condição de fragilidade e de desesperança.

O canto é algo consciente de anular a morte e criar uma aura de unidade. A renúncia órfica caracteriza-se justamente por esta crença de que cantar não é cobiçar algo, e sim, dentre outras coisas, simplesmente, também deixar ir, um perder e fazer-se ouvir.

A verdadeira árvore está no ouvido, “a grande árvore”, e desta forma, Orfeu criou uma espécie de “Templo” não físico, um templo sinônimo da relação cantar e ouvir. É o ouvir a ação básica do orfismo em sua natureza poética.

Rilke, poeta que viveu a mesma época do filósofo Heidegger, cuja filosofia pregava, dentre outras coisas, que a poesia é o fundamento que suporta a história, e acreditava que o poeta era o “arauto permanente” (bleibenden Boten”).

Uma observação: a palavra medieval “arauto” nem sempre pode ser traduzida pela moderna “mensageiro” devido aos riscos daqueles cavaleiros, mediadores de conflitos diante dos campos de batalha.

Mediadores de conflito. O arauto aqui é entendido como aquele que festeja na escuridão de um tempo de penúria a unidade, a permanência do ser. Para Rilke, a suprema realidade está no poema e todo poeta é apenas um servidor, um arauto, aquele que anuncia  esse mesmo poema por vir.

A poesia seria o “vinho inesgotável” para os homens, pois tudo conflui para ela. O poeta austríaco, na verdade, tcheco-suíço-francês-alemão, dizia que “tudo se faz uva, tudo se faz vinha” e por celebrar esses dois mundos ( na síntese de vida e a morte) a poesia não pode ser mentirosa, daí que foi a única arte consentida no Hades, o reino do “invisível”, segundo o Crátilo de Platão. Daqueles ainda tocados pela possessão divina de uma voz em trânsito com o divino, todos os outros podem se calar, menos o poeta que como um arauto permanente, mesmo além das portas dos mortos assegura as “salvas” com frutos de celebração.

A poesia celebra a unidade do ser e o poeta é seu mediador. Não haveria de ser diferente para quem conta ou narra uma história. Contar é existir.

 

O Barco e o Mito

Paulo Plínio Abreu

 

Barco de madeira construído no ar para a viagem do mito.

Nau feita de vento

E força de um pensar antigo.

Tua quilha tem o sabor do sal das águas fundas

E de um peixe que atravessou a garganta de um morto

 

Na tua vela tracei o emblema da rota

Que um dia imaginei olhando a Grande Ursa

Nos caminhos da noite. Nau sem porto,

As águas te seduzem e contigo me arrastam,

Barco feito de mito,

Construído no espaço

Com a matéria das nuvens.

Nau feita com o bico de uma ave

E um desejo de fuga.

Nau que a ti mesma te armaste

Do nada que podemos

Nave do nada feita e quase ave

Desfeita em voo puro e quase mito

 (ABREU, 2008, p. 37)

 

Para o poeta Paulo Plínio Abreu o mito é a viagem, o barco, a quilha, a peça única de madeira que sustenta a estrutura de toda a embarcação. Essa “força de um pensar antigo” revela a forma duradoura do ser – instigadora de filosofias e de poesia.



REFERÊNCIAS


ABREU, Paulo Plínio. Poesia. Prefácio, notícias e notas de Francisco Paulo Mendes, 2ª Edição. Belém : EDUFPA, 2008.

BERMUDES-CAÑETE, F. Rilke. Barcelona: Jucar, 1984.



                                              Orfeu e Eurídice



                                                         Rilke



                                                       Paulo Plínio Abreu - pelo pintor peruano Cesar Calvo.


Benilton Cruz

04.02.2021

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