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JUNTO AO TÚMULO DE TRAKL

 

JUNTO AO TÚMULO DE TRAKL

 

                   O mein Bruder klimmen wir blinde Zeiger gen

                                                                                     [Mitternacht.                                                                   Georg Trakl

                            (ó meu irmão, ponteiros cegos, nós subimos à

                                                                                      meia-noite)

              I

 

Até que a terra esconda

dos ossos o último sopro

de cinzas, a urna

à sombra

dessas espadas

no ar,

à janela,

serão flores sobre a laje

gasta do ácido das rosas

serão espelhos

que a rajada

fria da manhã acomoda

a palavra

que sopra, mas não cai

(hoje ainda: outono és

a estância última do sono)

 

 


             II

 

O despertar dos mortos

na casa da memória

– o Amor, oh meu irmão,

a noite estilhaçou de prata o teu túmulo

e tremem os olhos de Elis no silêncio de Deus

Teu repouso, meu raio de sol sob a chuva negra

Tuas aveleiras, Teus anjos de cristal

Tua lápide-terra, atalho de cavalos azuis,

Tua voz púrpura de melancolia,

Teu lamento cego

         nas flautas do outono,

Tua irmã suicida

Tuas papoulas de neve

Tua árvore castanha

                      sibila

                        solitária

 

                    Tu, túmulo

                     estrela

                        partida

 

verdeja ainda à fronte dos viajantes

        à procura por ti

 


Em julho de 1990, no cemitério de Innsbruck, na Áustria, junto ao Túmulo de Georg Trakl


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