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DESAMANHECER NO TÁXI BLUES: A POESIA DE SALGADO MARANHÃO

- José Salgado Santos, ou melhor, Salgado Maranhão (Caxias, Maranhão, 1953 - e ainda bem vivo) compositor brasileiro, alfabetizado aos 15 anos, tornou-se um dos maiores poetas de sua geração. Seu gosto pela poesia veio com os trovadores e as rodas de viola.

- Mudaria para o Rio de Janeiro, antes passando por Teresina, Piauí, onde conheceu o poeta tropicalista Torquato Neto. Possui mais de 50 músicas gravadas por vários artistas como Amelinha, Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Rosa Marya Colin, Vital Farias, Zizi Possi, Ivan Lins, Flavia Wesceslau, e outros.

Zizi Possi cantou esses versos de Salgado Maranhão, na música de Hermann de Medeiros Torres Filho:

"Nada resta mas o fruto
Que se tem
É o bastante pra querer
Um minuto além
Do que eu possa andar
Com você
Te amo e o tempo
Não varreu isso de mim
Por isso estou partindo
E tão forte assim"


Poetas, esses chamados de "letristas", na verdade sofrem com esse jogo entre o Tu e o Você. E coube bem no poema. Afinal, é a realidade linguística brasileira.

Ser poeta é lidar com as pedras.
- Desculpem, leitores, a palavra é pedra e ela voa na voz da canção.

A poesia é um idioma universal que está em toda língua desse planeta.

Leiam estes poemas e conversaremos depois, e num já agora, tempo circunciso, o corte e a liberdade, da escolha por uma palavra - não te demores (deixe o tu falar, e quem é esse tu?) quando a palavra é coisa tua e minha, e que partilhamos com alegria, acontece a poesia.

- E você, o que tem a dizer?


Abaixo, alguns versos de Salgado Maranhão (atentem ao sal e ao nome natal de seu estado, atentem ao mar e o sentido de navegar).
Nem o acre sabor das uvas
nos aplaca. Nem a chuva

nos olhos incendidos
devolve o que é vivido.

O magma que nos evapora
tange o rascunho das horas

sob um raio de suspense.
Nem o que é nosso nos pertence.

Desamanhecer

Agora,
na cidade da tua ausência
outro dia
desamanhece. E súplice
um grito escorre na paisagem.
Todos os lugares
são feitos do teu antes.
Da janela,
a noite chega
com as mãos vazias. E
tudo ao fim se esvai
em volta
como um tecido de ventos.

Só meu coração insiste
em erigir teu nome...
para além do esquecimento.




A foto: eu e o Cisne Branco, da Marinha Brasileira.


                           "não te demores (deixe o tu falar, e quem é esse tu?)
quando a palavra é coisa tua e minha, e que partilhamos
com alegria, acontece a poesia."

(Desculpe, Salgado Maranhão, esses versos são meus, inspirados nos teus).


Benilton Cruz

- Aqui do lado, seu vizinho Grão Estado do Pará.

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